A chamada "visão recebida" da natureza da ciência se formou a partir das diversas tentativas em definir as teorias científicas a partir da lógica. Como se sabe, a lógica simbólica teve um grande desenvolvimento nas primeiras décadas do século XX, e não tardou para que ela fosse aplicada à descrição geral das teorias científicas.
Trabalhos dos austríacos Moritz Schlick (1918) e Rudolf Carnap (1923) e do inglês N.R. Campbell (1920) lançaram a visão de que uma teoria científica consiste de um sistema lógico (com termos primitivos, postulados, termos derivados e teoremas) que só adquire significado empírico através de regras de correspondência com sentenças observacionais. Carnap e Schlick estabeleceram um influente grupo de discussão, o "Círculo de Viena", que no final da década de 20 desenvolveu vários aspectos dessa visão da ciência, que unia os métodos da lógica com a postura empirista (o conhecimento se funda na observação, e não como querem os racionalistas clássicos, a partir do intelecto) e positivista (enfatizando a demarcação entre ciência e metafísica).
O ponto de partida deste positivismo lógico era o critério de significado das sentenças observacionais ou "protocolares". O significado de uma sentença observacional, segundo o positivismo lógico, são suas "condições de verificação". Ou seja, se uma sentença (como "tem uma mesa na sala vizinha") pode ser verificada (no caso, é só irmos olhar na sala vizinha), então ela tem significado (faz sentido), mesmo que seja falsa. Tal critério é interessante, tendo sido também explorado pelo "operacionalismo" do físico americano Percy Bridgman, mas ele apresenta alguns problemas, que não trataremos aqui. De qualquer maneira, tal critério de significado serviria de demarcação entre questões científicas e questões metafísicas. Estas últimas seriam "sem sentido", já que não há maneira de verificar se uma sentença metafísica é verdadeira ou falsa.
Uma distinção importante é feita entre sentenças observacionais e sentenças teóricas, e boa parte do esforço dos positivistas lógicos foi mostrar como estas se fundam naquelas. Nos anos 30 Carnap aceitou a posição de seu companheiro de círculo, Otto Neurath, segundo a qual as sentenças observacionais não precisam se referir aos dados sensoriais, mas sim a objetos físicos, posição esta conhecida como "fisicalismo". No entanto, Carnap encontrou grande dificuldade em reduzir certos conceitos teóricos à base observacional (como os conceitos disposicionais: quebrável, etc.), e em 1936 passou a considerar que hipóteses científicas em geral não podem ser completamente verificadas, mas somente confirmadas até certo grau (ele viria a formalizar a noção probabilista de grau de confirmação, em 1950).
Uma última característica do positivismo lógico a ser mencionada, desenvolvida após a Segunda Guerra, quando a maioria de seus simpatizantes se transferiu para os E.U.A. (Carnap foi para Chicago), é a concepção de unidade da ciência, no sentido de que todos os ramos da ciência devem compartilhar do mesmo método, podendo ser expressos de maneira fisicalista.
Voltando agora para Viena da década de 30, encontramos um dos críticos mais vigorosos do positivismo lógico, Karl Popper. Sua concepção (em A Lógica da Descoberta Científica, 1935), que pode ser chamada de falseacionismo, enfatizava que na ciência não se deve procurar verificar sentenças básicas, mas sim procurar falseá-las. A ciência não progride por "generalização indutiva", observando fatos e derivando leis e teorias, mas sim pelo método hipotético-dedutivo: parte-se de uma conjectura (uma hipótese obtida de uma maneira qualquer) e de hipóteses auxiliares, deduzem-se suas conseqüências observacionais, e então se comparam estas conseqüências com observações empíricas. Se houver uma discrepância grande, então a conjectura (ou talvez uma das hipóteses auxiliares, como salientaram Duhem e Quine) é falseada, e a ciência progride. Se não ocorrer falseamento, então se diz que a conjectura (ou a teoria) foi "corroborada". Popper certamente não é um positivista, mas compartilha com o Círculo de Viena a valorização da lógica.
Outro filósofo da ciência proeminente nos anos 30 foi o alemão Hans Reichenbach, empirista que participava do "Grupo de Berlin" e propalava uma "filosofia científica". Dentre suas variadas contribuições, está a ênfase na probabilidade. Confirmação ou refutação teriam sempre um grau de probabilidade, e o "problema da indução" de Hume seria resolvido pragmaticamente usando a noção de probabilidade. Foi Reichenbach também que cunhou a distinção entre "contexto da justificação", que trata de como a ciência deve ser e que seria assunto da filosofia da ciência, e o "contexto da descoberta", que trataria de como a ciência é na realidade, sendo assunto da história, da sociologia ou da psicologia.
Após permanecer alguns anos na Turquia, durante a Guerra, Reichenbach se instalou em Los Angeles. Na década de 50, então, com a vinda de muitos empiristas para os E.U.A.(incluindo Hempel, Feigl, etc.), consolidou-se a visão recebida em filosofia da ciência. A unidade de análise em ciência é a teoria, que é uma estrutura lingüística expressa pela lógica. A teoria contém termos primitivos que só são definidos implicitamente através de postulados; a partir desses termos definem-se outros termos, e a partir dos postulados derivam-se teoremas. Este "cálculo puro" paira acima do mundo empírico, e seus termos só adquirem significado empírico através de "regras de correspondência", que ligam a linguagem teórica à linguagem observacional. A observação é considerada como sendo independente da teoria. Teorias progridem de acordo com critérios racionais: confirmação, falseamento, simplicidade, probabilidade. A filosofia da ciência era antes de tudo normativa (como a ciência deve ser), sendo pouco relevante a descrição de como a ciência de fato era feita.
Observação: estas notas foram produzidas a partir de textos e outros materiais obtidos nos cursos e atividades da FFLCH - USP no período de 2005 e 2006.
Trabalhos dos austríacos Moritz Schlick (1918) e Rudolf Carnap (1923) e do inglês N.R. Campbell (1920) lançaram a visão de que uma teoria científica consiste de um sistema lógico (com termos primitivos, postulados, termos derivados e teoremas) que só adquire significado empírico através de regras de correspondência com sentenças observacionais. Carnap e Schlick estabeleceram um influente grupo de discussão, o "Círculo de Viena", que no final da década de 20 desenvolveu vários aspectos dessa visão da ciência, que unia os métodos da lógica com a postura empirista (o conhecimento se funda na observação, e não como querem os racionalistas clássicos, a partir do intelecto) e positivista (enfatizando a demarcação entre ciência e metafísica).
O ponto de partida deste positivismo lógico era o critério de significado das sentenças observacionais ou "protocolares". O significado de uma sentença observacional, segundo o positivismo lógico, são suas "condições de verificação". Ou seja, se uma sentença (como "tem uma mesa na sala vizinha") pode ser verificada (no caso, é só irmos olhar na sala vizinha), então ela tem significado (faz sentido), mesmo que seja falsa. Tal critério é interessante, tendo sido também explorado pelo "operacionalismo" do físico americano Percy Bridgman, mas ele apresenta alguns problemas, que não trataremos aqui. De qualquer maneira, tal critério de significado serviria de demarcação entre questões científicas e questões metafísicas. Estas últimas seriam "sem sentido", já que não há maneira de verificar se uma sentença metafísica é verdadeira ou falsa.
Uma distinção importante é feita entre sentenças observacionais e sentenças teóricas, e boa parte do esforço dos positivistas lógicos foi mostrar como estas se fundam naquelas. Nos anos 30 Carnap aceitou a posição de seu companheiro de círculo, Otto Neurath, segundo a qual as sentenças observacionais não precisam se referir aos dados sensoriais, mas sim a objetos físicos, posição esta conhecida como "fisicalismo". No entanto, Carnap encontrou grande dificuldade em reduzir certos conceitos teóricos à base observacional (como os conceitos disposicionais: quebrável, etc.), e em 1936 passou a considerar que hipóteses científicas em geral não podem ser completamente verificadas, mas somente confirmadas até certo grau (ele viria a formalizar a noção probabilista de grau de confirmação, em 1950).
Uma última característica do positivismo lógico a ser mencionada, desenvolvida após a Segunda Guerra, quando a maioria de seus simpatizantes se transferiu para os E.U.A. (Carnap foi para Chicago), é a concepção de unidade da ciência, no sentido de que todos os ramos da ciência devem compartilhar do mesmo método, podendo ser expressos de maneira fisicalista.
Voltando agora para Viena da década de 30, encontramos um dos críticos mais vigorosos do positivismo lógico, Karl Popper. Sua concepção (em A Lógica da Descoberta Científica, 1935), que pode ser chamada de falseacionismo, enfatizava que na ciência não se deve procurar verificar sentenças básicas, mas sim procurar falseá-las. A ciência não progride por "generalização indutiva", observando fatos e derivando leis e teorias, mas sim pelo método hipotético-dedutivo: parte-se de uma conjectura (uma hipótese obtida de uma maneira qualquer) e de hipóteses auxiliares, deduzem-se suas conseqüências observacionais, e então se comparam estas conseqüências com observações empíricas. Se houver uma discrepância grande, então a conjectura (ou talvez uma das hipóteses auxiliares, como salientaram Duhem e Quine) é falseada, e a ciência progride. Se não ocorrer falseamento, então se diz que a conjectura (ou a teoria) foi "corroborada". Popper certamente não é um positivista, mas compartilha com o Círculo de Viena a valorização da lógica.
Outro filósofo da ciência proeminente nos anos 30 foi o alemão Hans Reichenbach, empirista que participava do "Grupo de Berlin" e propalava uma "filosofia científica". Dentre suas variadas contribuições, está a ênfase na probabilidade. Confirmação ou refutação teriam sempre um grau de probabilidade, e o "problema da indução" de Hume seria resolvido pragmaticamente usando a noção de probabilidade. Foi Reichenbach também que cunhou a distinção entre "contexto da justificação", que trata de como a ciência deve ser e que seria assunto da filosofia da ciência, e o "contexto da descoberta", que trataria de como a ciência é na realidade, sendo assunto da história, da sociologia ou da psicologia.
Após permanecer alguns anos na Turquia, durante a Guerra, Reichenbach se instalou em Los Angeles. Na década de 50, então, com a vinda de muitos empiristas para os E.U.A.(incluindo Hempel, Feigl, etc.), consolidou-se a visão recebida em filosofia da ciência. A unidade de análise em ciência é a teoria, que é uma estrutura lingüística expressa pela lógica. A teoria contém termos primitivos que só são definidos implicitamente através de postulados; a partir desses termos definem-se outros termos, e a partir dos postulados derivam-se teoremas. Este "cálculo puro" paira acima do mundo empírico, e seus termos só adquirem significado empírico através de "regras de correspondência", que ligam a linguagem teórica à linguagem observacional. A observação é considerada como sendo independente da teoria. Teorias progridem de acordo com critérios racionais: confirmação, falseamento, simplicidade, probabilidade. A filosofia da ciência era antes de tudo normativa (como a ciência deve ser), sendo pouco relevante a descrição de como a ciência de fato era feita.
Observação: estas notas foram produzidas a partir de textos e outros materiais obtidos nos cursos e atividades da FFLCH - USP no período de 2005 e 2006.