Gassendi
Pierre Gassendi (1592 – 1655) nasceu em uma família extremamente pobre na pequena cidade de Champtercier no sul da França. Em 1614 recebe seu doutorado em teologia e em 1616 é ordenado padre. Em 1617 começa a desempenhar a função de professor de filosofia em Aix. Sua educação em moldes principalmente humanistas desempenhou papel decisivo em suas escolhas de contexto filosófico. Suas leituras de Sêneca, Plutarco, Cícero e Lucrécio foram extremamente influentes. Esses autores conduziram Gassendi através de uma estrutura fortemente inclinada para o empirismo com traços de ceticismo. A necessidade de se livrar da tradição aristotélica conduziu-o ao reconhecimento de que o programa atomista, através de Epicuro, seria particularmente rico para a ciência experimental.
Gassendi desempenha um papel muito importante para o desenvolvimento da ciência moderna, trazendo a ontologia, ou como Koyré prefere dizer “o complemento de ontologia que ela precisava”. A ontologia utilizada está fundamentada na obra de Epicuro, modificada pela extirpação do clinamen e do peso essencial, mas preservada no seu aspecto principal, a saber, os átomos e o vácuo. Esse modelo é trazido para a cena do século XVII e colocado na linha de fogo contra o estagirita.
Gassendi assinala muito nitidamente sua oposição à tese essencial do cartesianismo, ou seja, a identificação da matéria física com a extensão geométrica. Ao “plenismo” cartesiano, ele opõe resolutamente a existência dos átomos e do vácuo. Foi a partir de sua opção pelo atomismo que Gassendi foi capaz de adotar idéias que terão muito sucesso mais tarde, como por exemplo a concepção corpuscular da luz, ou até mesmo ultrapassar Galileu, na formulação do princípio de inércia, e Pascal, na interpretação dos fenômenos barométricos.
Ninguém apresentou a concepção atômica com tanta veemência e nem defendeu a existência do vácuo sob todas as formas, tanto no interior do mundo como no seu exterior, quanto Pierre Gassendi.
No livro IV (sobre o método) do Institutio Logica de 1658, Pierre Gassendi propõe um ponto de encontro entre a inferência indutiva e a probabilidade no raciocínio empírico (FISCHER, 1998). A inferência indutiva, segundo ele, não possui as informações necessárias para fornecer certeza das pretensões que são sugeridas. Nem a inferência dedutiva pode nos fornecer certeza sobre as pretensões empíricas. As premissas alcançadas a partir da verificação experimental, através das quais nós apresentamos sustentação para tais pretensões, não são mais do que prováveis. Enquanto existe alguma coisa estranha em chamar a inferência dedutiva de “probabilística”, parece que Gassendi alcança um ponto de vista não-familiar. O uso do raciocínio dedutivo em contextos empíricos, enquanto fornecedor de certas garantias formais, não isola os argumentos empíricos do julgamento pela medida de crença que nós investimos em suas premissas.
O ponto que distingue a lógica de Gassendi de seus contemporâneos é que a força que é compartilhada por todas as evidências empíricas, independente da forma que nós as inferimos, consiste na garantia dada a partir da experiência, que nós introduzimos.
Gassendi apresenta uma análise, na qual antecipa a crítica de Hume à indução, justificando que qualquer movimento do particular para a generalização requer algo que pode estar além de nossos poderes cognitivos, ou seja, o nosso conhecimento empírico de todos esses casos particulares. A indução não pode nos levar do particular ao geral.
Gassendi classifica como probabilística as inferências dedutivas obtidas a partir de premissas empíricas. A razão para tal classificação é o fato de que tais evidências são baseadas em informações a partir dos sentidos, os quais, de qualquer modo, apesar de bastante sob controle, nunca garantem nossa certeza. Gassendi aceita a inferência dedutiva probabilística pela mesma razão que aceita a inferência indutiva.
Algumas perguntas cruciais não são consideradas. Cada regularidade produz resultado ?, ou seja, existem convicções empíricas viáveis ? A utilidade emerge como uma motivação conveniente em seu modelo sobre inferências.
Gssendi, baseado no atomismo grego, exibiu uma física que era ainda qualitativa. Isso permitiu-lhe, no entanto, por renovação ou restabelecimento, do atomismo antigo, oferecer uma base filosófica à ciência moderna. Outros uniram o que ele não soube unir, ou seja, o materialismo de Epicuro ao “matematismo” de Platão, que encontra na revolução galileana e cartesiana seus maiores representantes. Foi a união dessas duas correntes que, como é sabido, produziu a síntese newtoniana da física matemática.
Boyle
Robert Boyle (1627 – 1691) nasceu em uma rica família protestante na cidade de Lismore, Irlanda. Entre 12 e 17 anos viajou à Itália e em Florença estudou o trabalho de Galileu, que conduziu-o à rejeição do aristotelismo. Em 1644 Boyle retorna à Inglaterra e se torna um experimentador entusiástico. Boyle se tornou suficientemente conhecido no meio científico para chamar atenção do Invisible College, grupo que se reunia para discutir a nova ciência mecanística e anti-aristotélica. Boyle passa a participar das reuniões desse grupo em Oxford. O Invisible College foi o precursor da Royal Society que é criada em 1662, tendo Boyle como um dos seus membros fundadores.
Boyle aparece tradicionalmente nos manuais de química e mesmo em algumas histórias da química como o inventor da noção moderna de elemento. Ele teria, diz-se, definido os elementos como “corpos indecomponíveis que constituem as misturas e nos quais estas podem se decompor”. Historiadores como Thomas Khun consideram esta referência à definição revolucionária de Boyle como exemplo de erro histórico que consiste em retirar do seu contexto um enunciado que parece verdadeiro, isto é, aceitável hoje em dia. Boyle, de fato, não tentava definir uma noção “racional” (como a atual) de elemento, mas explicitar a definição tradicional de elemento, onde existia duvida em se saber se cada elemento entra, ou não, na constituição de todos os corpos. Boyle não substituiu a definição aristotélica por uma noção moderna de elemento, mas questionou a função do elemento na prática dos químicos.
Boyle escolheu um bom título para o seu livro: O Químico Cético (1661). A teoria atomista leva de fato a um ceticismo generalizado. O trabalho que um químico pode fazer ou observar, não pode basear uma teoria da matéria ou das suas transformações. Mais do que uma ruptura com o passado, o ceticismo de Boyle constitui uma destruição de todos os argumentos explorados nas controvérsias passadas. As práticas do químico são contingentes. As qualidades que caracterizam os corpos não são atributos que individualizam as substâncias, mas são o resultado de formas de ordenação e de estruturação de sua prática que ele pode ou não modificar. A diferença entre as misturas e os elementos remete ao químico e não à natureza.
“The Query 31”
Em 1704, Issac Newton, então presidente da Royal Society of London, publica Opticks, um livro que será referência constante para a física experimental do século XVIII. Com Opticks, Newton honra a abordagem experimental, a qual, supõe capaz de provar hipóteses a respeito dos fenômenos subjacentes.
No fim da Ótica, Newton aborda, sob forma de “questões”, um certo número de assuntos problemáticos, e nomeadamente a Química na famosa Query 31. A Query 31 pode ser vista como uma extrapolação da física gravitacional para a Química. É assim aliás que será entendida na Inglaterra. Segundo Bensaude-Vincent & Stengers (1992) uma outra leitura é possível: Newton restitui aos químicos o direito de falar de “poder”, ou de “potência”, dos reagentes, isto é de dar um sentido à sua prática, às suas operações, o que a química puramente mecanicista lhe interditava.
A atração gravitacional tem como primeiro atributo a uniformidade (é a mesma força que se exerce sobre a maçã e a Terra, a Lua e a Terra, a Terra e o Sol). Esta uniformidade desaparece na Query 31 em benefício de uma medida propriamente química das forças, que unem efetivamente as partículas de um composto. São estas forças, e não um cálculo teórico, que caracterizariam as diferentes formas de substâncias. A diversidade de forças é que permite compreender os limites e as possibilidades da análise química.
A Query 31, ponto de partida de histórias divergentes no século XVIII, é resultado de uma história secreta. História centrada em torno da tradição amaldiçoada pelo século XVIII, a alquimia. Os historiadores de Newton sempre souberam que ele teve uma atração pela alquimia, mas referiam-se a este fato sempre com a maior discrição. A figura de um Newton alquimista pode fazer parte de uma anedota para os que se interessam por astronomia ou pela ciência do movimento. Pelo contrário, para a Química ela é fundamental. Explica, por um lado, a bem-aventurada “base” da física newtoniana, que restituiu aos químicos aquilo que necessitavam tanto compreender: as suas operações em termos das forças dos reagentes. De outra forma, provoca o argumento que colocará sob tensão a química do século XVIII: submeter a química às forças do tipo newtoniano ou procurar nos fenômenos químicos os “princípios” que tornam inteligíveis suas operações.
Dalton
John Dalton (1766-1844) nasceu em Eaglesfield, seu pai era tecelão e sua família estava ligada à doutrina religiosa Quaker. Na cidade de Kendal, onde seu irmão lecionava, Dalton, já com 15 anos, começa a aprender latim, grego, matemática e ciências com aquele que se tornaria seu eterno amigo John Gough. Gough foi o grande incentivador da pesquisa de Dalton e o encorajou a manter um boletim meteorológico, o qual Dalton manteve diariamente até o dia de sua morte. Em Kendal começou a lecionar e em 1793 foi convidado para o New College. Em Manchester, nesse mesmo ano, Dalton publica Observações Metereológicas e Ensaios, artigo que revela sua falta de educação científica formal mas que contém o núcleo exploratório de sua teoria atômica. Manchester acolheria muito bem John Dalton a vida toda e o transformaria em um destacado filósofo natural.
John Dalton interessou-se primeiro pela meteorologia e pelas propriedades físicas dos gases, e foi provavelmente para explicar as diferenças na solubilidade dos gases que ele começou a utilizar as noções de peso e de tamanho dos gases. O átomo daltoniano não é herdeiro dos átomos antigos, nem dos corpúsculos newtonianos. É inventado e depois explorado, noutro contexto.
Pela época de Dalton as chamadas Leis Ponderais já estavam bastante consolidadas. Os trabalhos de Lavoisier e Proust revelavam como as quantidades em massa de reagentes e produtos interferiam nos processos de transformação química. John Dalton utiliza a lei de Proust como base de uma nova hipótese atômica. Sugere que as combinações químicas se fazem por unidades discretas, átomo por átomo, e que os átomos de cada elemento são idênticos. Dalton considera que sem essa hipótese atômica, as leis ponderais permanecem misteriosas como as lei de Kepler, antes de Newton.
Inspirando-se numa regra de simplicidade, o modelo atômico de Dalton não pretende ser um corpo físico. Está empenhado em corroborar as leis ponderais muito mais do que conduzir a uma explicação sobre a estrutura da matéria. Os átomos daltonianos possuem apenas um vago parentesco com seus homônimos antigos. Diferem pela sua definição: não são unidades mínimas da matéria, mas sim as menores unidades possíveis na combinação de diferentes substâncias. Diferem também pela sua função: não se trata de explicar o visível complicado pelo invisível simples, mas sim resolver problemas de linguagem, de fórmulas e de classificação.
O modelo de Dalton difere igualmente dos corpúsculos newtonianos, pois não pressupõem nem o vazio nem a atração e não têm o desejo de explicar as propriedades dos corpos simples em termos de uma arquitetura complicada, da qual os átomos seriam os constituintes últimos.
Chega-se ao final do século XVIII com um panorama extremamente complexo. O átomo daltoniano não apagou com um toque mágico o corpuscularismo. Apesar dos químicos se recusarem a se pronunciar sobre a existência dos átomos, admitem, na sua maioria, o átomo entre as noções fundamentais que devem ser definidos na introdução de seus tratados. Persiste o consenso newtoniano sobre a estrutura corpuscular da matéria. Não há qualquer dúvida que a matéria é formada por partículas, que se chamam corpúsculos, átomos ou moléculas. Se forem conhecidos seu peso, seu tamanho e a força que orienta suas combinações, pode-se deduzir todos os fenômenos químicos de modo geométrico. O século XIX se inaugura com dois pontos de vista sobre os átomos. O átomo dos físicos, que corresponde a um ideal de ciência dedutiva, mecanicista. E o átomo dos químicos que está inscrito num programa experimental de caracterização aritmética de cada substância.
John Dalton é um percurso obrigatório para todos que se aventuram a falar de atomismo. Seu modelo não constitui uma “revolução”. O caráter pedagógico de sua abordagem premiou sua permanência nos livros didáticos como o formulador do “primeiro modelo atômico moderno”. Muitas citações nesses livros conduzem aprendizes de Química a visões impróprias tanto históricas quanto filosóficas. John Dalton é muito citado por inventar um modelo que estava de acordo com as leis ponderais da época, na verdade foi inventado um modelo a partir das lei ponderais vigentes. Os que procuram minimizar os impactos de sua teoria alegam que Dalton reedita o modelo Demócrito/Epicurista Tal concepção, a meu ver, é no mínimo imprudente.
Referências:
BENSAUNDE-VINCENT, Bernadette, STENGERS, Isabelle. História da química. Lisboa:Instituto Piaget, 1992. 402 p.
Pierre Gassendi (1592 – 1655) nasceu em uma família extremamente pobre na pequena cidade de Champtercier no sul da França. Em 1614 recebe seu doutorado em teologia e em 1616 é ordenado padre. Em 1617 começa a desempenhar a função de professor de filosofia em Aix. Sua educação em moldes principalmente humanistas desempenhou papel decisivo em suas escolhas de contexto filosófico. Suas leituras de Sêneca, Plutarco, Cícero e Lucrécio foram extremamente influentes. Esses autores conduziram Gassendi através de uma estrutura fortemente inclinada para o empirismo com traços de ceticismo. A necessidade de se livrar da tradição aristotélica conduziu-o ao reconhecimento de que o programa atomista, através de Epicuro, seria particularmente rico para a ciência experimental.
Gassendi desempenha um papel muito importante para o desenvolvimento da ciência moderna, trazendo a ontologia, ou como Koyré prefere dizer “o complemento de ontologia que ela precisava”. A ontologia utilizada está fundamentada na obra de Epicuro, modificada pela extirpação do clinamen e do peso essencial, mas preservada no seu aspecto principal, a saber, os átomos e o vácuo. Esse modelo é trazido para a cena do século XVII e colocado na linha de fogo contra o estagirita.
Gassendi assinala muito nitidamente sua oposição à tese essencial do cartesianismo, ou seja, a identificação da matéria física com a extensão geométrica. Ao “plenismo” cartesiano, ele opõe resolutamente a existência dos átomos e do vácuo. Foi a partir de sua opção pelo atomismo que Gassendi foi capaz de adotar idéias que terão muito sucesso mais tarde, como por exemplo a concepção corpuscular da luz, ou até mesmo ultrapassar Galileu, na formulação do princípio de inércia, e Pascal, na interpretação dos fenômenos barométricos.
Ninguém apresentou a concepção atômica com tanta veemência e nem defendeu a existência do vácuo sob todas as formas, tanto no interior do mundo como no seu exterior, quanto Pierre Gassendi.
No livro IV (sobre o método) do Institutio Logica de 1658, Pierre Gassendi propõe um ponto de encontro entre a inferência indutiva e a probabilidade no raciocínio empírico (FISCHER, 1998). A inferência indutiva, segundo ele, não possui as informações necessárias para fornecer certeza das pretensões que são sugeridas. Nem a inferência dedutiva pode nos fornecer certeza sobre as pretensões empíricas. As premissas alcançadas a partir da verificação experimental, através das quais nós apresentamos sustentação para tais pretensões, não são mais do que prováveis. Enquanto existe alguma coisa estranha em chamar a inferência dedutiva de “probabilística”, parece que Gassendi alcança um ponto de vista não-familiar. O uso do raciocínio dedutivo em contextos empíricos, enquanto fornecedor de certas garantias formais, não isola os argumentos empíricos do julgamento pela medida de crença que nós investimos em suas premissas.
O ponto que distingue a lógica de Gassendi de seus contemporâneos é que a força que é compartilhada por todas as evidências empíricas, independente da forma que nós as inferimos, consiste na garantia dada a partir da experiência, que nós introduzimos.
Gassendi apresenta uma análise, na qual antecipa a crítica de Hume à indução, justificando que qualquer movimento do particular para a generalização requer algo que pode estar além de nossos poderes cognitivos, ou seja, o nosso conhecimento empírico de todos esses casos particulares. A indução não pode nos levar do particular ao geral.
Gassendi classifica como probabilística as inferências dedutivas obtidas a partir de premissas empíricas. A razão para tal classificação é o fato de que tais evidências são baseadas em informações a partir dos sentidos, os quais, de qualquer modo, apesar de bastante sob controle, nunca garantem nossa certeza. Gassendi aceita a inferência dedutiva probabilística pela mesma razão que aceita a inferência indutiva.
Algumas perguntas cruciais não são consideradas. Cada regularidade produz resultado ?, ou seja, existem convicções empíricas viáveis ? A utilidade emerge como uma motivação conveniente em seu modelo sobre inferências.
Gssendi, baseado no atomismo grego, exibiu uma física que era ainda qualitativa. Isso permitiu-lhe, no entanto, por renovação ou restabelecimento, do atomismo antigo, oferecer uma base filosófica à ciência moderna. Outros uniram o que ele não soube unir, ou seja, o materialismo de Epicuro ao “matematismo” de Platão, que encontra na revolução galileana e cartesiana seus maiores representantes. Foi a união dessas duas correntes que, como é sabido, produziu a síntese newtoniana da física matemática.
Boyle
Robert Boyle (1627 – 1691) nasceu em uma rica família protestante na cidade de Lismore, Irlanda. Entre 12 e 17 anos viajou à Itália e em Florença estudou o trabalho de Galileu, que conduziu-o à rejeição do aristotelismo. Em 1644 Boyle retorna à Inglaterra e se torna um experimentador entusiástico. Boyle se tornou suficientemente conhecido no meio científico para chamar atenção do Invisible College, grupo que se reunia para discutir a nova ciência mecanística e anti-aristotélica. Boyle passa a participar das reuniões desse grupo em Oxford. O Invisible College foi o precursor da Royal Society que é criada em 1662, tendo Boyle como um dos seus membros fundadores.
Boyle aparece tradicionalmente nos manuais de química e mesmo em algumas histórias da química como o inventor da noção moderna de elemento. Ele teria, diz-se, definido os elementos como “corpos indecomponíveis que constituem as misturas e nos quais estas podem se decompor”. Historiadores como Thomas Khun consideram esta referência à definição revolucionária de Boyle como exemplo de erro histórico que consiste em retirar do seu contexto um enunciado que parece verdadeiro, isto é, aceitável hoje em dia. Boyle, de fato, não tentava definir uma noção “racional” (como a atual) de elemento, mas explicitar a definição tradicional de elemento, onde existia duvida em se saber se cada elemento entra, ou não, na constituição de todos os corpos. Boyle não substituiu a definição aristotélica por uma noção moderna de elemento, mas questionou a função do elemento na prática dos químicos.
Boyle escolheu um bom título para o seu livro: O Químico Cético (1661). A teoria atomista leva de fato a um ceticismo generalizado. O trabalho que um químico pode fazer ou observar, não pode basear uma teoria da matéria ou das suas transformações. Mais do que uma ruptura com o passado, o ceticismo de Boyle constitui uma destruição de todos os argumentos explorados nas controvérsias passadas. As práticas do químico são contingentes. As qualidades que caracterizam os corpos não são atributos que individualizam as substâncias, mas são o resultado de formas de ordenação e de estruturação de sua prática que ele pode ou não modificar. A diferença entre as misturas e os elementos remete ao químico e não à natureza.
“The Query 31”
Em 1704, Issac Newton, então presidente da Royal Society of London, publica Opticks, um livro que será referência constante para a física experimental do século XVIII. Com Opticks, Newton honra a abordagem experimental, a qual, supõe capaz de provar hipóteses a respeito dos fenômenos subjacentes.
No fim da Ótica, Newton aborda, sob forma de “questões”, um certo número de assuntos problemáticos, e nomeadamente a Química na famosa Query 31. A Query 31 pode ser vista como uma extrapolação da física gravitacional para a Química. É assim aliás que será entendida na Inglaterra. Segundo Bensaude-Vincent & Stengers (1992) uma outra leitura é possível: Newton restitui aos químicos o direito de falar de “poder”, ou de “potência”, dos reagentes, isto é de dar um sentido à sua prática, às suas operações, o que a química puramente mecanicista lhe interditava.
A atração gravitacional tem como primeiro atributo a uniformidade (é a mesma força que se exerce sobre a maçã e a Terra, a Lua e a Terra, a Terra e o Sol). Esta uniformidade desaparece na Query 31 em benefício de uma medida propriamente química das forças, que unem efetivamente as partículas de um composto. São estas forças, e não um cálculo teórico, que caracterizariam as diferentes formas de substâncias. A diversidade de forças é que permite compreender os limites e as possibilidades da análise química.
A Query 31, ponto de partida de histórias divergentes no século XVIII, é resultado de uma história secreta. História centrada em torno da tradição amaldiçoada pelo século XVIII, a alquimia. Os historiadores de Newton sempre souberam que ele teve uma atração pela alquimia, mas referiam-se a este fato sempre com a maior discrição. A figura de um Newton alquimista pode fazer parte de uma anedota para os que se interessam por astronomia ou pela ciência do movimento. Pelo contrário, para a Química ela é fundamental. Explica, por um lado, a bem-aventurada “base” da física newtoniana, que restituiu aos químicos aquilo que necessitavam tanto compreender: as suas operações em termos das forças dos reagentes. De outra forma, provoca o argumento que colocará sob tensão a química do século XVIII: submeter a química às forças do tipo newtoniano ou procurar nos fenômenos químicos os “princípios” que tornam inteligíveis suas operações.
Dalton
John Dalton (1766-1844) nasceu em Eaglesfield, seu pai era tecelão e sua família estava ligada à doutrina religiosa Quaker. Na cidade de Kendal, onde seu irmão lecionava, Dalton, já com 15 anos, começa a aprender latim, grego, matemática e ciências com aquele que se tornaria seu eterno amigo John Gough. Gough foi o grande incentivador da pesquisa de Dalton e o encorajou a manter um boletim meteorológico, o qual Dalton manteve diariamente até o dia de sua morte. Em Kendal começou a lecionar e em 1793 foi convidado para o New College. Em Manchester, nesse mesmo ano, Dalton publica Observações Metereológicas e Ensaios, artigo que revela sua falta de educação científica formal mas que contém o núcleo exploratório de sua teoria atômica. Manchester acolheria muito bem John Dalton a vida toda e o transformaria em um destacado filósofo natural.
John Dalton interessou-se primeiro pela meteorologia e pelas propriedades físicas dos gases, e foi provavelmente para explicar as diferenças na solubilidade dos gases que ele começou a utilizar as noções de peso e de tamanho dos gases. O átomo daltoniano não é herdeiro dos átomos antigos, nem dos corpúsculos newtonianos. É inventado e depois explorado, noutro contexto.
Pela época de Dalton as chamadas Leis Ponderais já estavam bastante consolidadas. Os trabalhos de Lavoisier e Proust revelavam como as quantidades em massa de reagentes e produtos interferiam nos processos de transformação química. John Dalton utiliza a lei de Proust como base de uma nova hipótese atômica. Sugere que as combinações químicas se fazem por unidades discretas, átomo por átomo, e que os átomos de cada elemento são idênticos. Dalton considera que sem essa hipótese atômica, as leis ponderais permanecem misteriosas como as lei de Kepler, antes de Newton.
Inspirando-se numa regra de simplicidade, o modelo atômico de Dalton não pretende ser um corpo físico. Está empenhado em corroborar as leis ponderais muito mais do que conduzir a uma explicação sobre a estrutura da matéria. Os átomos daltonianos possuem apenas um vago parentesco com seus homônimos antigos. Diferem pela sua definição: não são unidades mínimas da matéria, mas sim as menores unidades possíveis na combinação de diferentes substâncias. Diferem também pela sua função: não se trata de explicar o visível complicado pelo invisível simples, mas sim resolver problemas de linguagem, de fórmulas e de classificação.
O modelo de Dalton difere igualmente dos corpúsculos newtonianos, pois não pressupõem nem o vazio nem a atração e não têm o desejo de explicar as propriedades dos corpos simples em termos de uma arquitetura complicada, da qual os átomos seriam os constituintes últimos.
Chega-se ao final do século XVIII com um panorama extremamente complexo. O átomo daltoniano não apagou com um toque mágico o corpuscularismo. Apesar dos químicos se recusarem a se pronunciar sobre a existência dos átomos, admitem, na sua maioria, o átomo entre as noções fundamentais que devem ser definidos na introdução de seus tratados. Persiste o consenso newtoniano sobre a estrutura corpuscular da matéria. Não há qualquer dúvida que a matéria é formada por partículas, que se chamam corpúsculos, átomos ou moléculas. Se forem conhecidos seu peso, seu tamanho e a força que orienta suas combinações, pode-se deduzir todos os fenômenos químicos de modo geométrico. O século XIX se inaugura com dois pontos de vista sobre os átomos. O átomo dos físicos, que corresponde a um ideal de ciência dedutiva, mecanicista. E o átomo dos químicos que está inscrito num programa experimental de caracterização aritmética de cada substância.
John Dalton é um percurso obrigatório para todos que se aventuram a falar de atomismo. Seu modelo não constitui uma “revolução”. O caráter pedagógico de sua abordagem premiou sua permanência nos livros didáticos como o formulador do “primeiro modelo atômico moderno”. Muitas citações nesses livros conduzem aprendizes de Química a visões impróprias tanto históricas quanto filosóficas. John Dalton é muito citado por inventar um modelo que estava de acordo com as leis ponderais da época, na verdade foi inventado um modelo a partir das lei ponderais vigentes. Os que procuram minimizar os impactos de sua teoria alegam que Dalton reedita o modelo Demócrito/Epicurista Tal concepção, a meu ver, é no mínimo imprudente.
Referências:
BENSAUNDE-VINCENT, Bernadette, STENGERS, Isabelle. História da química. Lisboa:Instituto Piaget, 1992. 402 p.