Leucipo & Demócrito
Leucipo de Mileto será o primeiro a utilizar a palavra átomo para descrever as menores partículas constituintes da matéria. Muito pouco se sabe sobre ele mas sua influência sobre Demócrito é descrita por este último nos fragmentos de manuscritos que chegaram até nossos tempos. O mestre Leucipo trabalha para tornar o homem mais flexível perante as coisas. A física é concebida como a ciência que permite penetrar a natureza para dela expulsar os “sortilégios temíveis”.
Demócrito de Abdera parece ter misturado de forma curiosa ciência e magia. Servia-se de seu conhecimento das regiões celestes e das relações que existem “entre o céu e a terra” para prever a chuva e a seca, a abundância e a escassez das colheitas. Contudo é com uma audácia inacreditável, que não se encontra em nenhum de seus contemporâneos, que Demócrito ousa sustentar que “os astros são constituídos de pedras”, “o sol é ferro incandescente ou uma pedra inflamada”. Para nosso espanto a sociedade que Demócrito vive é, mais ainda que a de Aristóteles, uma sociedade na qual os astros são divinos. Sua posição individual, nesse sentido, o destaca de qualquer fenômeno coletivo.
A experiência sensível em seu tempo era plenamente capaz de justificar o caráter divinal dos astros. Os astros são eternos porque “de fato” nunca ninguém os tinha visto nascer ou desaparecer; são imutáveis porque “de fato”, diferente do seu próprio movimento, ninguém os tinha visto deslocar-se “ao acaso”; são incorruptíveis porque “de fato” suas aparências não mudam nunca. Todas essas observações mostram que eles se comportam de forma muito diferente dos corpos à nossa volta. Esse contexto só será mudado pela observação das novae de Kepler e pelas manchas do sol por Galileu. O êxito de Demócrito, no entanto, não é obra do acaso. Sob os preceitos atomistas, escondia-se a vontade de atomizar a natureza inteira afim de torná-la mais acessível ao espírito humano.
Para Demócrito nada resta das aparências das coisas. Nem as qualidades sensíveis. A cor é convenção, o amargo é convenção, na verdade não existem senão átomos e vazio. Os átomos não vem de parte alguma e não vão para parte alguma, não seguem qualquer vontade nem qualquer intenção. O mundo não significa nada.
Esta tomada de posição perante o mundo significa a reivindicação pelo homem de uma liberdade absoluta perante as coisas, que ele pulveriza já com tanta resolução como aquela que será feita pelos mecanicistas no século XVII ao matematizar a natureza.
Epicuro
A fragmentada obra de Demócrito que restou, permite apreciar com limitações sua coerência, em contrapartida, a obra subsistente de Epicuro proporciona um sistema assustadoramente genial. Epicuro (341 – 270 a.c.), nascido na ilha de Samos, recebeu ensinamentos Platônicos, dos 14 aos 18 anos. Torna-se aluno de Nausífanes, discípulo de Demócrito, que ensinava em Teos. Em 306, regressa a Atenas, já seguido por vários ouvintes, compra um jardim onde instala uma escola, o que valeu aos Epicuristas o cognome de “filósofos do Jardim”.
A obra de Epicuro está dividida em três partes: a canônica – que aponta as vias pelas quais se pode ter acesso à realidade verdadeira; a física – o tratado sobre a natureza que indica o conhecimento que liberta de todo o receio da morte e dos deuses; e a ética – onde a conduta moral é mostrada como a via real para encontrar a sabedoria.
Nada é mais estranho ao pensamento de Epicuro do que o permanente esforço de Platão para nos elevar da realidade sensível à idéias inteligíveis. O sensualismo de Epicuro, repousa inteiramente sobre a idéia de que a sensação é a grande mensageira do real. Toda sensação nasce de um choque, nasce de um encontro e por isso é que os nossos conhecimentos começam com ela.
Uma sensação várias vezes repetida deixa em nós uma marca que é clara e evidente, nos dá a possibilidade de preceder a sensação em função das marcas que foram deixadas em nós por sensações anteriores semelhantes. A esse fenômeno Epicuro conceitua como antecipação. A antecipação é um esquema, uma idéia geral, não é a lembrança disso ou daquilo, mas a pluralidade de experiências parecidas. Nascida de observações, a antecipação deve ser confirmada pela sensação, caso contrário, permanecemos na conjectura e nos arriscamos a cair na opinião falsa.
O átomo é uma realidade indivisível, sólido, compacto, não contém qualquer vazio, qualquer intervalo. As propriedades do átomo são em número de três: tamanho, forma e peso. Tamanho e forma são conceitos já explorados por Leucipo e Demócrito, Epicuro apenas os apropria. Os átomos possuem tamanhos diferentes, mas não inumeráveis. As formas possíveis são inumeráveis, porém finitas.
O peso dos átomos parece ter sido uma idéia do próprio Epicuro. Apesar do peso dos átomos variar com seu tamanho e forma, estas variações não produzem qualquer diferença na velocidade de queda, caindo todos os átomos no vazio à mesma velocidade. Esta identidade de velocidade se encontra tanto no movimento oblíquo provocado pelos choques, como no movimento vertical para baixo, causado pelo peso. Com a idéia de peso Epicuro se distancia de Demócrito, para quem a causa do movimento dos átomos se encontra no “turbilhão original do Universo”, que se perpetua no movimento dos corpúsculos.
Um dos problemas da física Epicurista está no conflito que se gera entre o movimento a partir do peso (sempre na vertical) e alguma possibilidade de choque. Como existe choque se todos caem na mesma direção ? A solução ad hoc apontada é o clinamen (declinação).
A declinação é um movimento espontâneo dos átomos que os leva a desviarem-se para fora da linha de queda causada peso respectivo peso. A declinação ocorre num momento indeterminado e faz com que os átomos se desviem da vertical, por pouco que seja, o bastante para que se possa dizer que o movimento respectivo se modificou. Sem essa declinação, todos cairiam, conforme afirma Epicuro “como gotas de chuva, de cima para baixo através das profundezas do vazio” (BRUN, 1987, p.67).
A abordagem do clinamen é apontada por alguns historiadores como uma crise no princípio de causalidade e na uniformidade das leis da natureza, que são considerados os pilares fundamentais do sistema epicurista. Outros, vêem nesta teoria um todo perfeitamente harmônico com o resto da física. Nesse sentido, a declinação dos átomos é uma explicação da possibilidade que o homem tem de ser livre, ou seja, o ato voluntário não passa de um efeito da declinação dos átomos que constituem o espírito. A situação que o homem se encontra no mundo é função da “física”.
Referência:
BRUN, Jean. Epicurismo. Lisboa:Edições 70, 1987. 132 p.
Leucipo de Mileto será o primeiro a utilizar a palavra átomo para descrever as menores partículas constituintes da matéria. Muito pouco se sabe sobre ele mas sua influência sobre Demócrito é descrita por este último nos fragmentos de manuscritos que chegaram até nossos tempos. O mestre Leucipo trabalha para tornar o homem mais flexível perante as coisas. A física é concebida como a ciência que permite penetrar a natureza para dela expulsar os “sortilégios temíveis”.
Demócrito de Abdera parece ter misturado de forma curiosa ciência e magia. Servia-se de seu conhecimento das regiões celestes e das relações que existem “entre o céu e a terra” para prever a chuva e a seca, a abundância e a escassez das colheitas. Contudo é com uma audácia inacreditável, que não se encontra em nenhum de seus contemporâneos, que Demócrito ousa sustentar que “os astros são constituídos de pedras”, “o sol é ferro incandescente ou uma pedra inflamada”. Para nosso espanto a sociedade que Demócrito vive é, mais ainda que a de Aristóteles, uma sociedade na qual os astros são divinos. Sua posição individual, nesse sentido, o destaca de qualquer fenômeno coletivo.
A experiência sensível em seu tempo era plenamente capaz de justificar o caráter divinal dos astros. Os astros são eternos porque “de fato” nunca ninguém os tinha visto nascer ou desaparecer; são imutáveis porque “de fato”, diferente do seu próprio movimento, ninguém os tinha visto deslocar-se “ao acaso”; são incorruptíveis porque “de fato” suas aparências não mudam nunca. Todas essas observações mostram que eles se comportam de forma muito diferente dos corpos à nossa volta. Esse contexto só será mudado pela observação das novae de Kepler e pelas manchas do sol por Galileu. O êxito de Demócrito, no entanto, não é obra do acaso. Sob os preceitos atomistas, escondia-se a vontade de atomizar a natureza inteira afim de torná-la mais acessível ao espírito humano.
Para Demócrito nada resta das aparências das coisas. Nem as qualidades sensíveis. A cor é convenção, o amargo é convenção, na verdade não existem senão átomos e vazio. Os átomos não vem de parte alguma e não vão para parte alguma, não seguem qualquer vontade nem qualquer intenção. O mundo não significa nada.
Esta tomada de posição perante o mundo significa a reivindicação pelo homem de uma liberdade absoluta perante as coisas, que ele pulveriza já com tanta resolução como aquela que será feita pelos mecanicistas no século XVII ao matematizar a natureza.
Epicuro
A fragmentada obra de Demócrito que restou, permite apreciar com limitações sua coerência, em contrapartida, a obra subsistente de Epicuro proporciona um sistema assustadoramente genial. Epicuro (341 – 270 a.c.), nascido na ilha de Samos, recebeu ensinamentos Platônicos, dos 14 aos 18 anos. Torna-se aluno de Nausífanes, discípulo de Demócrito, que ensinava em Teos. Em 306, regressa a Atenas, já seguido por vários ouvintes, compra um jardim onde instala uma escola, o que valeu aos Epicuristas o cognome de “filósofos do Jardim”.
A obra de Epicuro está dividida em três partes: a canônica – que aponta as vias pelas quais se pode ter acesso à realidade verdadeira; a física – o tratado sobre a natureza que indica o conhecimento que liberta de todo o receio da morte e dos deuses; e a ética – onde a conduta moral é mostrada como a via real para encontrar a sabedoria.
Nada é mais estranho ao pensamento de Epicuro do que o permanente esforço de Platão para nos elevar da realidade sensível à idéias inteligíveis. O sensualismo de Epicuro, repousa inteiramente sobre a idéia de que a sensação é a grande mensageira do real. Toda sensação nasce de um choque, nasce de um encontro e por isso é que os nossos conhecimentos começam com ela.
Uma sensação várias vezes repetida deixa em nós uma marca que é clara e evidente, nos dá a possibilidade de preceder a sensação em função das marcas que foram deixadas em nós por sensações anteriores semelhantes. A esse fenômeno Epicuro conceitua como antecipação. A antecipação é um esquema, uma idéia geral, não é a lembrança disso ou daquilo, mas a pluralidade de experiências parecidas. Nascida de observações, a antecipação deve ser confirmada pela sensação, caso contrário, permanecemos na conjectura e nos arriscamos a cair na opinião falsa.
O átomo é uma realidade indivisível, sólido, compacto, não contém qualquer vazio, qualquer intervalo. As propriedades do átomo são em número de três: tamanho, forma e peso. Tamanho e forma são conceitos já explorados por Leucipo e Demócrito, Epicuro apenas os apropria. Os átomos possuem tamanhos diferentes, mas não inumeráveis. As formas possíveis são inumeráveis, porém finitas.
O peso dos átomos parece ter sido uma idéia do próprio Epicuro. Apesar do peso dos átomos variar com seu tamanho e forma, estas variações não produzem qualquer diferença na velocidade de queda, caindo todos os átomos no vazio à mesma velocidade. Esta identidade de velocidade se encontra tanto no movimento oblíquo provocado pelos choques, como no movimento vertical para baixo, causado pelo peso. Com a idéia de peso Epicuro se distancia de Demócrito, para quem a causa do movimento dos átomos se encontra no “turbilhão original do Universo”, que se perpetua no movimento dos corpúsculos.
Um dos problemas da física Epicurista está no conflito que se gera entre o movimento a partir do peso (sempre na vertical) e alguma possibilidade de choque. Como existe choque se todos caem na mesma direção ? A solução ad hoc apontada é o clinamen (declinação).
A declinação é um movimento espontâneo dos átomos que os leva a desviarem-se para fora da linha de queda causada peso respectivo peso. A declinação ocorre num momento indeterminado e faz com que os átomos se desviem da vertical, por pouco que seja, o bastante para que se possa dizer que o movimento respectivo se modificou. Sem essa declinação, todos cairiam, conforme afirma Epicuro “como gotas de chuva, de cima para baixo através das profundezas do vazio” (BRUN, 1987, p.67).
A abordagem do clinamen é apontada por alguns historiadores como uma crise no princípio de causalidade e na uniformidade das leis da natureza, que são considerados os pilares fundamentais do sistema epicurista. Outros, vêem nesta teoria um todo perfeitamente harmônico com o resto da física. Nesse sentido, a declinação dos átomos é uma explicação da possibilidade que o homem tem de ser livre, ou seja, o ato voluntário não passa de um efeito da declinação dos átomos que constituem o espírito. A situação que o homem se encontra no mundo é função da “física”.
Referência:
BRUN, Jean. Epicurismo. Lisboa:Edições 70, 1987. 132 p.