Como colocou Niels Bohr, a importância das ciências naturais para o desenvolvimento do pensamento filosófico em geral baseia-se não apenas em suas contribuições para o conhecimento da natureza de que nós fazemos parte, mas também nas oportunidades que ela tem oferecido, vez por outra, para o exame e aperfeiçoamento dos objetos conceituais. Em nosso século, os estudos da constituição atômica da matéria revelaram que a abrangência das idéias da física clássica apresentava-se como limitação, o que lançou nova luz sobre as demandas de explicação, que foram incorporadas à filosofia. Os fundamentos de nossos conceitos elementares sobre os fenômenos atômicos tem um alcance que ultrapassa em muito o campo das ciências naturais.
Dentre os conceitos explorados através das ciências naturais, o de átomo poderia ser considerado como o mais consolidado e ao mesmo tempo mais difuso. Suas representações no imaginário social alcançam diferentes significados e formas. Para os que já foram apresentados ao assunto parece inquestionável – o átomo existe. O poder de convencimento dos argumentos em torno da teoria atômica são espetaculares. Contudo nem sempre foi assim. O histórico de nossa formação ocidental revela que estivemos mergulhados por mais tempo na negação de uma natureza atomizada.
As formas clássicas de escrever a história das ciências colocam o atomismo à margem de seu enredo, no entanto, na tentativa de entender uma filosofia da natureza, sua investigação indica um sentido extremamente preciso. Existe simultaneamente fecundidade científica e um rigor que, com efeito condenou esse movimento a permanecer durante dois mil anos como a doutrina de uma minoria.
Uma velha tradição fazia remontar a teoria atômica a Mochus, personagem provavelmente lendária, dada como sendo um filósofo fenício que vivera na época da guerra de Tróia. A idéia de corpúsculos indivisíveis, decerto, não era novidade e deve ter começado por ser uma resposta dada a questão: “se cortamos um corpo em dois e se continuarmos a operação, podemos prossegui-la ao infinito ?”. Os atomistas respondiam que não e afirmavam que se acabaria encontrando o mais pequeno elemento da matéria resistente a qualquer procedimento de divisão. Os personagens desta longa aventura da história do conhecimento possuem em comum a certeza de uma natureza atomizada e a vontade de conduzir o homem a si mesmo, ensinar-lhe – ou reensinar-lhe – a liberdade.
Desde que o De rerum natura de Lucrécio foi redescoberto no início do século XV, e através dele o reencontro com a obra de Epicuro e Demócrito, a popularidade das teorias atômicas ou corpusculares constitui uma história que não pertence somente a Química. A diferença entre as qualidades primárias, propriedades dos átomos, e as qualidades secundárias, que remetem ao observador, é um tema de múltiplos debates em filosofia.
Apesar de colocar problemas a teologia, como será visto, o atomismo soube conspirar de forma a se estabelecer como uma doutrina autenticamente cristã, em oposição ao aristotelismo pagão. As substâncias aristotélicas não agem apenas segundo sua própria natureza, beneficiam-se também de uma perigosa autonomia em relação ao criador. Gassendi, na França, e Boyle, na Inglaterra irão defender no século XVII, que os átomos permitem compreender o mundo como uma máquina, submetida à vontade do seu criador, para o qual reverte-se toda a glória.
É no início do século XVII que se afirma o novo estatuto epistemológico da teoria física. As leis de Kepler já definem, em termos matemáticos, o primeiro núcleo de rigor, ainda que estejam prisioneiras de esquemas mentais astrológicos. O grande nome nesse momento é sem dúvida o de Galileu, segundo Hilton Japiassú (1991), diferentemente de Bacon, que nada mais viu, no procedimento científico do que o papel da experiência, e de Descartes, que supervalorizou o papel da dedução matemática, Galileu faz a junção das matemáticas e das experiências. O sistema do mundo, despojado de seus atributos sobrenaturais, converte-se no objeto de uma ciência rigorosa. Galileu apenas define alguns de seus elementos, a grande síntese será feita por Isaac Newton.
No presente ensaio pretende-se sopitar o prestígio Cartesiano na inspiração fundamental do mecanicismo, afim de desvelar a influência da corrente atomista nesse movimento. A influência de Descartes sobre seus contemporâneos era, segundo Alexandre Koyré (1991) , bastante pequena. Aliás, ainda segundo Koyré, os fundamentos da nova ciência, libertada do aristotelismo escolástico, foram fornecidos por Pierre Gassendi.
O interesse pelo atomismo é um fenômeno cultural e intelectual. As operações químicas, como fatos empíricos, deveriam ter um lugar central no testemunho da existência dos átomos, ou seja, tais atividades deveriam ser descritas relativamente a uma matéria descontínua. Todavia, é isso mesmo que ocorre nas situações didáticas que encontramos na lida empírica da química? Talvez devamos concordar que o jogo empírico da química nos coloca contra o atomismo? Que tipo de base empírica está em ação no trabalho atomista? Há prevalência da base empírica sobre as funções teóricas do conhecimento nesse domínio? Tentaremos traçar algumas destas questões nos capítulos seguintes.
Referências:
JAPIASSÚ, Hilton. As paixões da ciência. São Paulo:Letras & Letras, 1991, 336 p.
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. 2 ed. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 1991. 387 p.
Dentre os conceitos explorados através das ciências naturais, o de átomo poderia ser considerado como o mais consolidado e ao mesmo tempo mais difuso. Suas representações no imaginário social alcançam diferentes significados e formas. Para os que já foram apresentados ao assunto parece inquestionável – o átomo existe. O poder de convencimento dos argumentos em torno da teoria atômica são espetaculares. Contudo nem sempre foi assim. O histórico de nossa formação ocidental revela que estivemos mergulhados por mais tempo na negação de uma natureza atomizada.
As formas clássicas de escrever a história das ciências colocam o atomismo à margem de seu enredo, no entanto, na tentativa de entender uma filosofia da natureza, sua investigação indica um sentido extremamente preciso. Existe simultaneamente fecundidade científica e um rigor que, com efeito condenou esse movimento a permanecer durante dois mil anos como a doutrina de uma minoria.
Uma velha tradição fazia remontar a teoria atômica a Mochus, personagem provavelmente lendária, dada como sendo um filósofo fenício que vivera na época da guerra de Tróia. A idéia de corpúsculos indivisíveis, decerto, não era novidade e deve ter começado por ser uma resposta dada a questão: “se cortamos um corpo em dois e se continuarmos a operação, podemos prossegui-la ao infinito ?”. Os atomistas respondiam que não e afirmavam que se acabaria encontrando o mais pequeno elemento da matéria resistente a qualquer procedimento de divisão. Os personagens desta longa aventura da história do conhecimento possuem em comum a certeza de uma natureza atomizada e a vontade de conduzir o homem a si mesmo, ensinar-lhe – ou reensinar-lhe – a liberdade.
Desde que o De rerum natura de Lucrécio foi redescoberto no início do século XV, e através dele o reencontro com a obra de Epicuro e Demócrito, a popularidade das teorias atômicas ou corpusculares constitui uma história que não pertence somente a Química. A diferença entre as qualidades primárias, propriedades dos átomos, e as qualidades secundárias, que remetem ao observador, é um tema de múltiplos debates em filosofia.
Apesar de colocar problemas a teologia, como será visto, o atomismo soube conspirar de forma a se estabelecer como uma doutrina autenticamente cristã, em oposição ao aristotelismo pagão. As substâncias aristotélicas não agem apenas segundo sua própria natureza, beneficiam-se também de uma perigosa autonomia em relação ao criador. Gassendi, na França, e Boyle, na Inglaterra irão defender no século XVII, que os átomos permitem compreender o mundo como uma máquina, submetida à vontade do seu criador, para o qual reverte-se toda a glória.
É no início do século XVII que se afirma o novo estatuto epistemológico da teoria física. As leis de Kepler já definem, em termos matemáticos, o primeiro núcleo de rigor, ainda que estejam prisioneiras de esquemas mentais astrológicos. O grande nome nesse momento é sem dúvida o de Galileu, segundo Hilton Japiassú (1991), diferentemente de Bacon, que nada mais viu, no procedimento científico do que o papel da experiência, e de Descartes, que supervalorizou o papel da dedução matemática, Galileu faz a junção das matemáticas e das experiências. O sistema do mundo, despojado de seus atributos sobrenaturais, converte-se no objeto de uma ciência rigorosa. Galileu apenas define alguns de seus elementos, a grande síntese será feita por Isaac Newton.
No presente ensaio pretende-se sopitar o prestígio Cartesiano na inspiração fundamental do mecanicismo, afim de desvelar a influência da corrente atomista nesse movimento. A influência de Descartes sobre seus contemporâneos era, segundo Alexandre Koyré (1991) , bastante pequena. Aliás, ainda segundo Koyré, os fundamentos da nova ciência, libertada do aristotelismo escolástico, foram fornecidos por Pierre Gassendi.
O interesse pelo atomismo é um fenômeno cultural e intelectual. As operações químicas, como fatos empíricos, deveriam ter um lugar central no testemunho da existência dos átomos, ou seja, tais atividades deveriam ser descritas relativamente a uma matéria descontínua. Todavia, é isso mesmo que ocorre nas situações didáticas que encontramos na lida empírica da química? Talvez devamos concordar que o jogo empírico da química nos coloca contra o atomismo? Que tipo de base empírica está em ação no trabalho atomista? Há prevalência da base empírica sobre as funções teóricas do conhecimento nesse domínio? Tentaremos traçar algumas destas questões nos capítulos seguintes.
Referências:
JAPIASSÚ, Hilton. As paixões da ciência. São Paulo:Letras & Letras, 1991, 336 p.
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. 2 ed. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 1991. 387 p.